Crônica –
Vida Besta
[Mário Martinez]
2h10. Madrugada. O sol do dia que amanhecerá dali a algumas horas já arde na agenda de sua mente. Negócios, compras, a visita à filial, a conta bancária, a bronca no subordinado, o curso de inglês, o novo programa de computador, o almoço com o supervisor, as metas do mês, a revisão do carro, a devolução do filme pego no final de semana e que não pode ser visto por falta de tempo, a retirada de um outro filme (que provavelmente não será visto), a compra dos ingressos para o baile no clube (baile que não sabe ainda se vai – mas é preciso adquirir os ingressos com antecedência), o curso noturno de aprimoramento em administração, o jantar de negócios.
Por um momento, o enxame de compromissos dissolve-se em sua cabeça e ele passa a observar coisas menores. Sobre a escrivaninha ainda repousa semi-aberto o livro de Neruda comprado há mais de um ano e sequer folheado com atenção. Vem-lhe o trecho de uma famosa canção de Chico Buarque e Francis Hime, canção que, aliás, faz parte de um CD com coletânea de canções românticas comprado recentemente e também à espera da primeira audição.
O dia anterior não foi diferente. Tão ou mais atribulado como o que está por começar. Acordou às 6, saiu sem café, chegou atrasado para a reunião das 7, não leu o jornal, não comprou o presente de aniversário da mãe, esqueceu-se mais uma vez de telefonar para Cecília, perdeu o prazo para pagar com desconto o seguro do carro, preparou sem atenção a lição de inglês, fez leitura dinâmica dos principais tópicos da apostila do curso de administração. Engolia o cronometrado almoço e nas frestas de olhar observava a colega de mesa (faltou-lhe tempo para cortar o cabelo e comprar o sapato novo).O erro do subordinado.
Enquanto responde formalmente os e-mails de negócio que congestionam sua caixa postal e obrigam-no a ficar acordado todos os dias até aquela hora, lembra-se da moça com quem dividiu a mesa do almoço. A mais bela visão do dia. Rubem Braga dizia que a visão de uma mulher bonita é o maior remédio para nossos males. Mas a imagem da moça vem-lhe imprecisa. Qual a cor de seus cabelos? Como era mesmo o vestido? E os olhos? Ela sorriu? Por que não puxara assunto, um fiozinho de conversa que pudesse produzir algum elo de futuro?
No outro canto da escrivaninha, ao lado do Neruda, em meio a uma quase dezena de pedaços de papéis anotados com letra ligeira, em uma folha amarelecida o último verso de um poema de Drummond parecia lhe dizer algo:
- “Eita vida besta, meu Deus!”
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Este artigo foi postado em 5 de fevereiro de 2010 as 14:31. Categorias: Cinema, Música e LiteraturaeEnvelhecimento. Tags de posts: baile, canções românticas, Chico Buarque, clube, Crônica, curso, Drummond, NerudaeRubem Braga. O feed RSS 2.0 para os comentários sobre este artigo é esse. Você pode fazer um comentário, ou deixar o trackback de seu site.






março 6th, 2010 - 19:48
Mário,
Gostei muito da crônica, que retrata, com precisão, o ritmo vertiginoso da vida moderna. Mariza.